O meu post sobre Gecélia tomando sorvete me fez recordar sua questão Gecélia quando estava em internamento hospitalar.
No primeiro internamento, ela começou comendo as refeições apenas com restrição de temperos, pois os médicos nao conheciam o seu organismo.
Como ela teve uma discreta melhora ainda da primeira síndrome, sua alimentação passou para dieta livre.
Após isso, ela teve alta pra casa, no final de outubro de 2011.
Já em dezembro de 2011, como a deglutição dela estava piorando (disfagia), começaram as restrições na consistência da comida. Colocaram para nós que Gecélia tinha que ser alimentada com tudo passado no liquidificador, o que eles chamam de dieta líquido-pastosa. O motivo era que Gecélia estava sem capacidade suficiente para mastigar e engulir com eficácia, e isso poderia causar sérios problemas. Esse período foi terrível. Minha esposa chorava por comida de fora, a ponto de passar noites me pedido pra trazer lanches. Não tenho como negar que cheguei a levar algunas vezes, mas tinha muito medo de causar problemas com isso.
Outra dificuldade era com a nossa alimentação. Para proteger Gecélia da voltade exagerada de comer, nós evitávamos ao máximo falar em comida, e também comer dentro do quarto. Isso gerava conflitos familiares, pois alguns não entendiam a gravidade do que minha esposa estava passando, e chegavam a comentar, na frente dela, sobre a comida que haviam saboreado na noite anterior, ou sobre como foi bom o passeio no restaurante tal. Tratava-se de falta de atenção, na verdade. Mas comer no quarto, ninguém comia. Pelo menos, quando Gecélia estava acordada.
Isso me trouxe dificuldades várias vezes, pois nos dias em que passava sozinho com ela, eu sofria com o seguinte dilema: não podia deixar Gecélia sozinha, já que ela estava sem enxergar e com dificuldades para falar. Por outro lado, não podia almoçar dentro do quarto, devido ao cheiro da comida. Resultado: deixava de almoçar várias vezes. Quando muito, conseguia ir rapidamente à lanchonete e comer um sanduiche... Muito rápido, para não deixá-la sozinha muito tempo. Também levava às vezes o sanduiche para o quarto e comia bem no cantinho, próximo à porta, para não chamar a atenção do olfato de Gecélia, muitas vezes tão apurado ao ponto de sentir o odor e questionar se tinha alguém comendo no quarto. Perdi muitos quilos, sendo isto visível até aos médicos.
Quando minha esposa teve alta pra casa no final de Dezembro de 2011, tivemos imensas dificuldades em alimentá-la. Ela comia, se muito fosse, apenas duas ou três colheres de todo um almoço. Feria-se bastante, por falta de coordenação para mastigar, e também nao bebia água suficientemente, de modo que adquiriu uma desidratação, visível em sintomas como pele seca, feridas nos lábios e perda de peso. Tivemos que interná-la novamente, em Janeiro de 2012, quando os médicos decidiram passar uma sonda naso-enteral, finalizando assim todas as nossas tentativas de alimentá-la pela boca.
Minha esposa estava agora sendo alimentada com dieta enteral. Muito difícil para ela, para mim, para todos nós.
Apesar da dieta e da água terem sanado a desidratação e seus sintomas, tivemos mais uma surpresa desagradável: como Gecélia era muito inquieta, muitas vezes ela puxava a sonda, que era composta por uma borrachinha que ia por dentro do nariz até o estômago. Por conta disto, os médicos determinaram que ela deveria se utilizar de uma sonda gástrica, esta mais definitiva e menos incômoda, mas que nessecitava de uma endoscopia cirúrgica para ser implantada. Esta foi a última intervenção médica em minha esposa, que hoje esta em casa com este tipo de sonda. Não é a primeira, pois até mesmo esta, Gecélia chegou a tirar.
O fato é que toda esta trajetória durante seis meses foi muito desgastante. E o pior é que lidávamos também com as outras dificuldades de Gecélia, tudo ao mesmo tempo.
Uma coisa curiosa é que Gecélia reclamava muito, mas muito mesmo, da questão alimentar. Porém, eu nunca a vi murmurando por não poder enxergar, ou andar. Apenas presenciava os seus medos e dúvidas quanto ao que aconteceria mais a diante em relacão a isto. Mas reclamar mesmo, ela reclamava por não poder comer.
Longe de mim achar que ela gostava, ou gosta da situação de dependência... Não é isso. Mas sim o fato dela ser tão forte a ponto de se comportar deste modo.
Hoje, como que se entregando à situação, minha esposa as vezes chora como uma criança e grita com angústia em vários momentos. Afinal, é muito sofrimento o que ela está passando, e só Deus, nós que a acompanhamos e estes belos momentos, como as sessões de fono quando ela pode tomar suco ou sorvete, para amenizar a sua dor.
Frutos do mar e caranguejo sempre foram sua preferência. Quem sabe um dia, poderá minha esposa usufruir deste "luxo", como já faz com sucos e sorvete.
Paz a todos, e continuem orando por nós.
Samuel Luna, esposo de Gecélia Luna.
Após isso, ela teve alta pra casa, no final de outubro de 2011.
Já em dezembro de 2011, como a deglutição dela estava piorando (disfagia), começaram as restrições na consistência da comida. Colocaram para nós que Gecélia tinha que ser alimentada com tudo passado no liquidificador, o que eles chamam de dieta líquido-pastosa. O motivo era que Gecélia estava sem capacidade suficiente para mastigar e engulir com eficácia, e isso poderia causar sérios problemas. Esse período foi terrível. Minha esposa chorava por comida de fora, a ponto de passar noites me pedido pra trazer lanches. Não tenho como negar que cheguei a levar algunas vezes, mas tinha muito medo de causar problemas com isso.
Outra dificuldade era com a nossa alimentação. Para proteger Gecélia da voltade exagerada de comer, nós evitávamos ao máximo falar em comida, e também comer dentro do quarto. Isso gerava conflitos familiares, pois alguns não entendiam a gravidade do que minha esposa estava passando, e chegavam a comentar, na frente dela, sobre a comida que haviam saboreado na noite anterior, ou sobre como foi bom o passeio no restaurante tal. Tratava-se de falta de atenção, na verdade. Mas comer no quarto, ninguém comia. Pelo menos, quando Gecélia estava acordada.
Isso me trouxe dificuldades várias vezes, pois nos dias em que passava sozinho com ela, eu sofria com o seguinte dilema: não podia deixar Gecélia sozinha, já que ela estava sem enxergar e com dificuldades para falar. Por outro lado, não podia almoçar dentro do quarto, devido ao cheiro da comida. Resultado: deixava de almoçar várias vezes. Quando muito, conseguia ir rapidamente à lanchonete e comer um sanduiche... Muito rápido, para não deixá-la sozinha muito tempo. Também levava às vezes o sanduiche para o quarto e comia bem no cantinho, próximo à porta, para não chamar a atenção do olfato de Gecélia, muitas vezes tão apurado ao ponto de sentir o odor e questionar se tinha alguém comendo no quarto. Perdi muitos quilos, sendo isto visível até aos médicos.
Quando minha esposa teve alta pra casa no final de Dezembro de 2011, tivemos imensas dificuldades em alimentá-la. Ela comia, se muito fosse, apenas duas ou três colheres de todo um almoço. Feria-se bastante, por falta de coordenação para mastigar, e também nao bebia água suficientemente, de modo que adquiriu uma desidratação, visível em sintomas como pele seca, feridas nos lábios e perda de peso. Tivemos que interná-la novamente, em Janeiro de 2012, quando os médicos decidiram passar uma sonda naso-enteral, finalizando assim todas as nossas tentativas de alimentá-la pela boca.
Minha esposa estava agora sendo alimentada com dieta enteral. Muito difícil para ela, para mim, para todos nós.
Apesar da dieta e da água terem sanado a desidratação e seus sintomas, tivemos mais uma surpresa desagradável: como Gecélia era muito inquieta, muitas vezes ela puxava a sonda, que era composta por uma borrachinha que ia por dentro do nariz até o estômago. Por conta disto, os médicos determinaram que ela deveria se utilizar de uma sonda gástrica, esta mais definitiva e menos incômoda, mas que nessecitava de uma endoscopia cirúrgica para ser implantada. Esta foi a última intervenção médica em minha esposa, que hoje esta em casa com este tipo de sonda. Não é a primeira, pois até mesmo esta, Gecélia chegou a tirar.
O fato é que toda esta trajetória durante seis meses foi muito desgastante. E o pior é que lidávamos também com as outras dificuldades de Gecélia, tudo ao mesmo tempo.
Uma coisa curiosa é que Gecélia reclamava muito, mas muito mesmo, da questão alimentar. Porém, eu nunca a vi murmurando por não poder enxergar, ou andar. Apenas presenciava os seus medos e dúvidas quanto ao que aconteceria mais a diante em relacão a isto. Mas reclamar mesmo, ela reclamava por não poder comer.
Longe de mim achar que ela gostava, ou gosta da situação de dependência... Não é isso. Mas sim o fato dela ser tão forte a ponto de se comportar deste modo.
Hoje, como que se entregando à situação, minha esposa as vezes chora como uma criança e grita com angústia em vários momentos. Afinal, é muito sofrimento o que ela está passando, e só Deus, nós que a acompanhamos e estes belos momentos, como as sessões de fono quando ela pode tomar suco ou sorvete, para amenizar a sua dor.
Frutos do mar e caranguejo sempre foram sua preferência. Quem sabe um dia, poderá minha esposa usufruir deste "luxo", como já faz com sucos e sorvete.
Paz a todos, e continuem orando por nós.
Samuel Luna, esposo de Gecélia Luna.

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