segunda-feira, 20 de agosto de 2012

UMA DIVISA E A PROTEÇÃO DE DEUS


Quando Gecélia foi internada pela segunda vez, no dia 01 de Dezembro de 2011, com o objetivo de infusão de Imunoglobulina Intravenosa (tratamento de imunoterapia), os médicos acharam por bem colocá-la na UTI Semi-Intensiva, que é uma sala ao lado da UTI, destinada a pacientes que não são graves, mas precisam de monitoramento dos sinais vitais, como freqüência cardí
aca, pressão arterial, nível de saturação de oxigênio no sangue, e outros. Se qualquer desses sinais se deteriora, o paciente é transferido para dentro da UTI.

Gecélia estava com fraqueza respiratória, provavelmente devido à ataxia cerebelar, e seria um risco mantê-la durante os cinco dias da infusão no apartamento.

Foi uma experiência que jamais irei esquecer. Nunca havia posto os pés numa UTI, e lá estava eu, pela primeira vez, com minha esposa como paciente. Lembro que, assim que chegamos, os enfermeiros a levaram e eu tive que esperar do lado de fora, o que me deixou louco, pois Gecélia nunca ficara sozinha antes daquele momento.

A Semi-Intensiva é um local onde é permitida a presença de um acompanhante, e como Gecélia já estava sem enxergar de frente (apenas de lado), seria o local correto para que ela ficasse.

Nos sete dias em que ficamos ali, presenciei diversas coisas. É um ambiente diferente da ala de apartamentos. O ritmo de trabalho é mais rápido, o estresse dos funcionários mais visível, e o mais incrível: o barulho do local. Eram máquinas que soavam bips a todo momento, um entra e sai de gente, e nós só estávamos mais protegidos disso porque havia uma passagem exclusiva para a UTI, de modo que ninguém precisava passar por nossa sala. Gecélia ficava muito tempo com uma máscara de oxigênio, pois a saturação estava entre 90 e 92, quando o ideal é acima de 95. Outro fato: visitas só eram permitidas em dois horários por dia, e eu tinha que sair, pois só podia ficar uma pessoa na sala.

Dos sete dias, fiquei pelo menos seis com Gecélia, dia e noite. Havia um banheiro exclusivo, uma poltrona e uma pequena estante. O restante, era parte das instalações médicas, e, portanto, muito desconfortável em comparação com o quarto.

A relação com os profissionais era muito difícil, pois Gecélia, pela primeira vez na vida, teve que ficar os sete dias na cama. Eles não deixavam que ela saísse devido ao padrão respiratório. Por isso, ela teve que usar fraudas pela primeira vez. Além disso, como os pacientes da UTI eram graves, os funcionários davam uma atenção suficiente, mas de certo modo limitada a Gecélia, e demoravam a atender meus pedidos. Isso me tirava do sério, a ponto de discutir com médicos de plantão, enfermeiros e com o médico assistente de Gecélia. Outro detalhe é que fui muito criticado por tentar interferir no trabalho dos funcionários. O motivo é que, por mais que eles sejam preparados para o serviço, é difícil conhecer bem um paciente de uma hora pra outra. Eu sabia tudo sobre Gecélia: o melhor local para acesso venoso, as medicações que ela havia tomado, etc, e nós tínhamos que nos submeter aos métodos do local. Levei muita reclamação de funcionários, simplesmente por alertar sobre pequenos erros que eles cometiam, como por exemplo, retirar a bomba de infusão do medicamento e deixar descer por gravidade, quando a velocidade de infusão era importantíssima para não causar reações.

Mas o que mais me impressionou naquele local foi a divisa entre a vida e a morte. Gecélia estava fora disso, graças a Deus. Mas não pude deixar de ver coisas que aconteciam na UTI, já que a separação de nossa sala era uma passagem sem porta, apenas com uma cortina, e eu tinha que olhar para chamar alguém. Gecélia não viu nada, por não conseguir enxergar e por ficar na cama o tempo todo, mas eu vi pessoas saírem de lá sem vida, umas três vezes. Contudo, o contrário também me chamou atenção: havia um senhor que estava acordado e consciente o tempo todo, inclusive se alimentando sozinho. Este senhor nos cumprimentava, assistia à televisão e, quatro dias após nossa chegada, saiu de lá para o quarto, muito cheio de vida. Além deste senhor, um rapaz que estava desacordado, cheio de tubos e acessos, foi melhorando aos poucos, e fiquei sabendo depois que ele foi restaurado por Deus, tendo alta e chegando a voltar ao local já recuperado, andando e falando normalmente.

Quanto a Gecélia? Bom, no quinto dia, não precisou mais da máscara de oxigênio, e teve alta para o quarto no sétimo dia. E os sinais vitais? Histórico PERFEITO. Nenhuma complicação. Tivemos a proteção de Deus o tempo todo.

Depois disso tudo, Gecélia ficou mais dez dias no quarto, em tratamento de uma infecção respiratória que ela possuía desde novembro. Ela ainda foi submetida a uma cirurgia de retirada do ovário esquerdo, que continha um cisto, até então de comportamento benigno, mas que era a única provável evidência de um câncer em atividade para justificar de forma mais palpável a Degeneração Cerebelar. O cisto foi retirado, a biópsia foi feita e o resultado, que saiu vinte dias depois, foi “Endometrioma”. Ou seja: cisto benigno, com ausência de câncer.

Em Janeiro de 2012, Gecélia voltou ao mesmo local para ser submetida a uma Plasmaférese, procedimento de filtração do sangue para substituição do plasma, e que possui como protocolo padrão o internamento do paciente na Semi-Intensiva. Mais sete dias, mais experiências, mais dedicação, inclusive de familiares nossos também.

Paz a todos.
Samuel Luna, esposo de Gecélia Luna.

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