Texto longo, mas como os outros, escrito para contar muitas bênçãos em nossas vidas. Pela primeira vez, chorei ao digitar. Aquele choro bom de emoção. Leiam com carinho e disposição, principalmente os pais e mães.
ADOÇÃO: UMA REALIDADE PRESENTE NA VIDA DE GECÉLIA E NA MINHA VIDA.
Todos sabem que nossos filhos Gabriel e Rafael são adotados. E sabem que eu também sou filho adotivo. Minha mãe, Gláucia Luna, adotou-me com poucos dias de nascimento, há muitos anos atrás, naturalmente. Ela me adotou (ou me maternou, como muitas vezes diz), juntamente com meu pai, que faleceu quando eu tinha cinco anos. Então, cresci educado por minha mãe, uma pedagoga, professora do Instituto Cantinho Feliz, escola que ela administrou por mais de trinta anos de muito trabalho. Tenho muito orgulho da educação que minha mãe me deu, e sou muito grato a ela por isso.
Gecélia é de uma família de três irmãos: ela, Gerlane e Neilson. Perderam o pai muito cedo, quando Gecélia era adolescente, e de forma brusca, violenta: num assalto, quando o bandido viu na sua carteira que ele era policial. Desde então, apesar deles terem à mãe para criá-los, Gecélia assumiu de certa forma um papel fundamental na estrutura familiar, por ser a primeira filha.
Nossa história de vida juntos é permeada por muita coisa boa; de fato, sempre fomos fiéis um ao outro e nossa relação é de muito amor, troca, confiança e amizade. Minha esposa me ajudou várias vezes a tomar decisões importantes, como por exemplo, a questão dos nossos filhos. Paramos de evitar a gravidez aos cinco anos de casados. Porém, o tempo passou e o nosso primeiro bebê não vinha. Foram vários exames, todos com resultados normais, além de um tratamento à base de injeções, igualmente sem sucesso. Tínhamos o que os médicos chamam de “infertilidade sem causa aparente”. Foi aí que chegamos até uma “bifurcação” na estrada de nossa vida: de um lado, estava a opção de fazer inseminação, ou outro procedimento qualquer na área de concepção assistida; do outro, a adoção. Gecélia não teve dúvidas: opinou que não faria procedimento algum, e que era chegada a hora de adotarmos um bebê. Minha opinião foi a mesma, e assim, decidimos nos cadastrar na Vara da Infância e Juventude de Recife, no setor de adoção.
O tempo passou, e nada de nos chamarem. Se me lembro bem, foram 18 meses de espera, sem qualquer ligação para nós. O motivo foram os critérios de adoção que escolhemos (direito de todo casal), pois queríamos um bebezinho de até seis meses. Há muitas crianças nos abrigos, mas recém nascidos são muito raros, e devido a isso, decidimos partir para o que se chama de “adoção consentida”: receber uma criança direto das mãos da família biológica, e depois, entrar com um processo de adoção. E assim, surgiu Gabriel, nosso primeiro filhinho, nascido no interior do Rio Grande do Norte. Foi uma linda história, juntando-se o tempo de espera, a busca por ele, a viagem de volta e sua chegada até a nossa família.
Demos entrada no processo de adoção na Comarca de Olinda/PE, processo este que durou extensos dois anos, sendo até então o primeiro processo envolvendo duas Comarcas tão distantes, que a equipe técnica da Vara da Infância havia visto. Durante este tempo, estivemos com a Guarda Provisória de Gabriel, e graças a Deus, o processo foi super tranqüilo, sem nenhuma complicação, exceto o tempo de espera.
Tratou-se de mais um capítulo na nossa história de vida, com todos os detalhes técnicos, procedimentos, idas e vindas ao Fórum de Olinda, audiências e outras coisas. Mas tem uma coisa específica que me surpreende até hoje: durante o processo, Gecélia passou em um concurso público para estagiar por dois anos como psicóloga no TJPE (Tribunal de Justiça de Pernambuco), e adivinhem onde ela estagiou no primeiro ano: exatamente no Fórum de Olinda! Ela fez parte da equipe interprofissional, juntamente com uma assistente social e uma pedagoga. Os processos que envolvem crianças correm em segredo de justiça, não sendo acessíveis pela internet. Com isso, enquanto trabalhava com os processos relativos a crianças e adolescentes, inclusive casos de adoção, Gecélia podia acompanhar o processo de Gabriel apenas saindo de uma sala e entrando na outra! Incrível como Deus age em nossas vidas.
No segundo ano, Gecélia foi transferida para Recife, e trabalhou na Vara da Infância e Juventude, no mesmo complexo de prédios onde ficava o setor de cadastro de adotantes. Ela trabalhou em outra área, desta vez com menores em conflito com a lei, um trabalho perigoso até certo ponto.
Finalmente, chegou a decisão final do processo, e pudemos solicitar a certidão definitiva de Gabriel, bem como colocar-lhe o seu nome definitivo, uma vez que a justiça procedeu com a destituição do poder familiar original e nos autorizou a adotá-lo. Adoção irrevogável, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente. Foi uma verdadeira festa, mas no fundo, já tínhamos Gabriel como filho legítimo desde o início.
O tempo passou, e quando Gabriel completou dois anos e meio, aconteceu o inesperado: estava eu no meu trabalho, numa segunda feira à tarde, quando recebo uma ligação. Era a psicóloga da Vara da Infância e Juventude de Recife, que me falou de vez, em uma única frase:
“Senhor Samuel, estamos ligando porque vimos que o Sr e sua esposa estão cadastrados para adotarem uma criança de até seis meses. Apareceu um bebê no perfil de vocês. Vocês querem adotá-lo?”
Gente... na hora, meu coração quase para (no bom sentido). Minhas mãos suaram ao ouvir aquilo. Como é que pode?! Depois de QUATRO ANOS, nos ligam assim, na maior naturalidade, pra contar que há um bebê “disponível pra nós”?!
Minha primeira reposta foi apenas pelo racional: que já tínhamos um filho, pois se passara muito tempo. Só que algo me tocou o coração e eu disse à psicóloga que iria consultar minha esposa, como fazia com tudo de mais sério em nossas vidas. No mesmo momento, liguei pra Gecélia, contei tudo, e perguntei o que ela achava. A resposta dela foi IMEDIATA, sem pensar duas vezes: “Claro que eu quero, Sam! Mais um filhinho, que Bênção de Deus! O cadastro finalmente nos chamou! Vamos aceitar! Vamos aceitar!”
Pessoal, emociono-me ao digitar isso, pois me lembro das palavras de minha esposa no telefone como se fosse hoje. Mesmo assim, a decisão de ter um filho é muito séria, e com eu planejava tudo, até mesmo para comprar uma pizza, não seria diferente neste caso, de tão maior importância. Por isso, passamos alguns dias conversando a respeito, até chegar à quinta feira, quando fomos ao abrigo visitar o bebê. Passamos a noite conversando, e no dia seguinte, deixei o racional de lado e tomei minha decisão: aceitei adotá-lo também. fomos buscar Rafael no abrigo, junto com Gabriel e com a mãe de Gecélia.
Foi uma experiência única! Gecélia teve, lá mesmo, a chance de dar o primeiro banho em Rafael e trocar sua frauda, quando depois, voltamos pra casa com aquele bebezinho tão lindo, e Gabriel feliz da vida pelo irmãozinho.
No mesmo dia, saímos para comprar o enxoval dele, tudo assim: de última hora. Foi mais brusco do que uma gravidez indesejada, pois neste caso, há alguns meses de preparo. Mas com Rafael não: foi apenas UMA SEMANA!
Depois, o processo correu, e bem diferente do de Gabriel, uma vez que a família biológica já havia perdido o poder familiar. Foram apenas DOIS MESES até sair a certidão definitiva de Rafa. Pouco depois, descobri algo que também nos tocou profundamente (preparem-se, respirem fundo e leiam a próxima frase):
O cadastro havia ligado para OITO CASAIS, antes de nós, e nenhum quis ficar com Rafael. Os motivos são vários: já têm um filho (como falei antes, de nós mesmos), não estão mais em condições de adotar, e até mesmo o mais triste: estão separados. Afinal, dependendo dos critérios de adoção, é muito tempo que se passa, e nesse período, muita coisa pode mudar. Mas conosco, foi diferente: estávamos prontos desde o início para receber Rafael em nossos braços. Só não sabíamos disso, e assim, Deus providenciou Sua bênção. Ele veio ao mundo para nós.
Hoje, nossos dois filhos são uma bênção imensa em nossas vidas, e na vida dos nossos familiares, recebendo muito amor de todos, e retribuindo carinho pra todo lado, mesmo com as dificuldades naturais que envolvem toda criação de filhos. Pra falar a verdade, muitos consideram que a presença dos meninos na vida de Gecélia é a principal terapia para sua melhora. De fato, Gecélia AMA CRIANÇAS. Tanto é que o estágio dela na clínica da FACHO, em Olinda, também foi nesta área, acompanhando crianças com necessidades especiais, principalmente neurológicas e psiquiátricas, bem como seus pais.
Além disso, ela estava pra começar uma pós-graduação na área de Psicomotricidade, ciência que tem como objeto de estudo o homem através do seu corpo em movimento, em relação ao seu mundo interno e externo, e cuja abordagem envolve bastante o tratamento de crianças. Gecélia queria, e quer ser uma psicóloga infantil, especialista nesta área. Mas infelizmente, desenvolveu as síndromes antes disso. Não deu tempo... até mesmo o seu CRP, que havia saído em Janeiro de 2012, teve que ser suspenso por mim, coisa que até hoje, não tive coragem de lhe contar.
Essa é nossa história de adoção, um ato tão belo, tão humano e tão digno.
Paz.
Samuel Luna, esposo de Gecélia Luna.
Gecélia é de uma família de três irmãos: ela, Gerlane e Neilson. Perderam o pai muito cedo, quando Gecélia era adolescente, e de forma brusca, violenta: num assalto, quando o bandido viu na sua carteira que ele era policial. Desde então, apesar deles terem à mãe para criá-los, Gecélia assumiu de certa forma um papel fundamental na estrutura familiar, por ser a primeira filha.
Nossa história de vida juntos é permeada por muita coisa boa; de fato, sempre fomos fiéis um ao outro e nossa relação é de muito amor, troca, confiança e amizade. Minha esposa me ajudou várias vezes a tomar decisões importantes, como por exemplo, a questão dos nossos filhos. Paramos de evitar a gravidez aos cinco anos de casados. Porém, o tempo passou e o nosso primeiro bebê não vinha. Foram vários exames, todos com resultados normais, além de um tratamento à base de injeções, igualmente sem sucesso. Tínhamos o que os médicos chamam de “infertilidade sem causa aparente”. Foi aí que chegamos até uma “bifurcação” na estrada de nossa vida: de um lado, estava a opção de fazer inseminação, ou outro procedimento qualquer na área de concepção assistida; do outro, a adoção. Gecélia não teve dúvidas: opinou que não faria procedimento algum, e que era chegada a hora de adotarmos um bebê. Minha opinião foi a mesma, e assim, decidimos nos cadastrar na Vara da Infância e Juventude de Recife, no setor de adoção.
O tempo passou, e nada de nos chamarem. Se me lembro bem, foram 18 meses de espera, sem qualquer ligação para nós. O motivo foram os critérios de adoção que escolhemos (direito de todo casal), pois queríamos um bebezinho de até seis meses. Há muitas crianças nos abrigos, mas recém nascidos são muito raros, e devido a isso, decidimos partir para o que se chama de “adoção consentida”: receber uma criança direto das mãos da família biológica, e depois, entrar com um processo de adoção. E assim, surgiu Gabriel, nosso primeiro filhinho, nascido no interior do Rio Grande do Norte. Foi uma linda história, juntando-se o tempo de espera, a busca por ele, a viagem de volta e sua chegada até a nossa família.
Demos entrada no processo de adoção na Comarca de Olinda/PE, processo este que durou extensos dois anos, sendo até então o primeiro processo envolvendo duas Comarcas tão distantes, que a equipe técnica da Vara da Infância havia visto. Durante este tempo, estivemos com a Guarda Provisória de Gabriel, e graças a Deus, o processo foi super tranqüilo, sem nenhuma complicação, exceto o tempo de espera.
Tratou-se de mais um capítulo na nossa história de vida, com todos os detalhes técnicos, procedimentos, idas e vindas ao Fórum de Olinda, audiências e outras coisas. Mas tem uma coisa específica que me surpreende até hoje: durante o processo, Gecélia passou em um concurso público para estagiar por dois anos como psicóloga no TJPE (Tribunal de Justiça de Pernambuco), e adivinhem onde ela estagiou no primeiro ano: exatamente no Fórum de Olinda! Ela fez parte da equipe interprofissional, juntamente com uma assistente social e uma pedagoga. Os processos que envolvem crianças correm em segredo de justiça, não sendo acessíveis pela internet. Com isso, enquanto trabalhava com os processos relativos a crianças e adolescentes, inclusive casos de adoção, Gecélia podia acompanhar o processo de Gabriel apenas saindo de uma sala e entrando na outra! Incrível como Deus age em nossas vidas.
No segundo ano, Gecélia foi transferida para Recife, e trabalhou na Vara da Infância e Juventude, no mesmo complexo de prédios onde ficava o setor de cadastro de adotantes. Ela trabalhou em outra área, desta vez com menores em conflito com a lei, um trabalho perigoso até certo ponto.
Finalmente, chegou a decisão final do processo, e pudemos solicitar a certidão definitiva de Gabriel, bem como colocar-lhe o seu nome definitivo, uma vez que a justiça procedeu com a destituição do poder familiar original e nos autorizou a adotá-lo. Adoção irrevogável, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente. Foi uma verdadeira festa, mas no fundo, já tínhamos Gabriel como filho legítimo desde o início.
O tempo passou, e quando Gabriel completou dois anos e meio, aconteceu o inesperado: estava eu no meu trabalho, numa segunda feira à tarde, quando recebo uma ligação. Era a psicóloga da Vara da Infância e Juventude de Recife, que me falou de vez, em uma única frase:
“Senhor Samuel, estamos ligando porque vimos que o Sr e sua esposa estão cadastrados para adotarem uma criança de até seis meses. Apareceu um bebê no perfil de vocês. Vocês querem adotá-lo?”
Gente... na hora, meu coração quase para (no bom sentido). Minhas mãos suaram ao ouvir aquilo. Como é que pode?! Depois de QUATRO ANOS, nos ligam assim, na maior naturalidade, pra contar que há um bebê “disponível pra nós”?!
Minha primeira reposta foi apenas pelo racional: que já tínhamos um filho, pois se passara muito tempo. Só que algo me tocou o coração e eu disse à psicóloga que iria consultar minha esposa, como fazia com tudo de mais sério em nossas vidas. No mesmo momento, liguei pra Gecélia, contei tudo, e perguntei o que ela achava. A resposta dela foi IMEDIATA, sem pensar duas vezes: “Claro que eu quero, Sam! Mais um filhinho, que Bênção de Deus! O cadastro finalmente nos chamou! Vamos aceitar! Vamos aceitar!”
Pessoal, emociono-me ao digitar isso, pois me lembro das palavras de minha esposa no telefone como se fosse hoje. Mesmo assim, a decisão de ter um filho é muito séria, e com eu planejava tudo, até mesmo para comprar uma pizza, não seria diferente neste caso, de tão maior importância. Por isso, passamos alguns dias conversando a respeito, até chegar à quinta feira, quando fomos ao abrigo visitar o bebê. Passamos a noite conversando, e no dia seguinte, deixei o racional de lado e tomei minha decisão: aceitei adotá-lo também. fomos buscar Rafael no abrigo, junto com Gabriel e com a mãe de Gecélia.
Foi uma experiência única! Gecélia teve, lá mesmo, a chance de dar o primeiro banho em Rafael e trocar sua frauda, quando depois, voltamos pra casa com aquele bebezinho tão lindo, e Gabriel feliz da vida pelo irmãozinho.
No mesmo dia, saímos para comprar o enxoval dele, tudo assim: de última hora. Foi mais brusco do que uma gravidez indesejada, pois neste caso, há alguns meses de preparo. Mas com Rafael não: foi apenas UMA SEMANA!
Depois, o processo correu, e bem diferente do de Gabriel, uma vez que a família biológica já havia perdido o poder familiar. Foram apenas DOIS MESES até sair a certidão definitiva de Rafa. Pouco depois, descobri algo que também nos tocou profundamente (preparem-se, respirem fundo e leiam a próxima frase):
O cadastro havia ligado para OITO CASAIS, antes de nós, e nenhum quis ficar com Rafael. Os motivos são vários: já têm um filho (como falei antes, de nós mesmos), não estão mais em condições de adotar, e até mesmo o mais triste: estão separados. Afinal, dependendo dos critérios de adoção, é muito tempo que se passa, e nesse período, muita coisa pode mudar. Mas conosco, foi diferente: estávamos prontos desde o início para receber Rafael em nossos braços. Só não sabíamos disso, e assim, Deus providenciou Sua bênção. Ele veio ao mundo para nós.
Hoje, nossos dois filhos são uma bênção imensa em nossas vidas, e na vida dos nossos familiares, recebendo muito amor de todos, e retribuindo carinho pra todo lado, mesmo com as dificuldades naturais que envolvem toda criação de filhos. Pra falar a verdade, muitos consideram que a presença dos meninos na vida de Gecélia é a principal terapia para sua melhora. De fato, Gecélia AMA CRIANÇAS. Tanto é que o estágio dela na clínica da FACHO, em Olinda, também foi nesta área, acompanhando crianças com necessidades especiais, principalmente neurológicas e psiquiátricas, bem como seus pais.
Além disso, ela estava pra começar uma pós-graduação na área de Psicomotricidade, ciência que tem como objeto de estudo o homem através do seu corpo em movimento, em relação ao seu mundo interno e externo, e cuja abordagem envolve bastante o tratamento de crianças. Gecélia queria, e quer ser uma psicóloga infantil, especialista nesta área. Mas infelizmente, desenvolveu as síndromes antes disso. Não deu tempo... até mesmo o seu CRP, que havia saído em Janeiro de 2012, teve que ser suspenso por mim, coisa que até hoje, não tive coragem de lhe contar.
Essa é nossa história de adoção, um ato tão belo, tão humano e tão digno.
Paz.
Samuel Luna, esposo de Gecélia Luna.

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